Cientificamente comprovado
11/30/2009No início do ano de 1995 eu era estudante de Agronomia na antiga ESAM, e uma das disciplinas da grade currícular tinha o pomposo nome de Entomologia e Parasitologia I, onde estudávamos os insetos e sua relação com a agricultura e pecuária.
O trabalho de conclusão semestral consistia em fazer um insetário completo, em caixa de madeira com tampa de vidro, e uma folha espessa de isonor onde os pobres insetos — depois de devidamente assassinados em um pote de Nescafé com um chumaço de algodão embebido em éter ou acetona — deveriam ser arrumados e alfinetados pelas costas, e etiquetados com o nome científico e hora e data de coleta.
Na coleção deveriam haver insetos de várias ordens diferentes, e eu sempre me divertia arrumando os bichinhos no isonor. Era como brincar com um Playmobil que já foi vivo.
Os mais divertidos eram os Ortopteróides (grilos, esperanças, bichos-pau). Sempre ficavam bonitos depois de arrumadinhos, com as patas levemente dobradas nas juntas, antenas esticadas e, às vezes, asas abertas em posição de vôo.
Um belo dia consegui capturar três magníficos exemplares de Ortopteróides: um grilo, uma esperança, e um gafanhoto. Enfiei os três em vidrinhos separados, embebi os chumaços de algodão no loló, joguei dentro, e os deixei agonizando uma noite inteira. No dia seguinte peguei os cadáveres, ajeitei-lhes as patas, meti-lhes alfinetes nas costas e os preguei na caixa, devidamente etiquetados. No mesmo dia fui apresentar meu insetário ao professor, para ganhar a nota final do semestre.
A minha grande surpresa foi chegar lá e ver que o grilo ainda se mexia, mesmo depois de uma noite exposto ao ácido e de ter levado uma alfinetada nas costas.
Bizarro para caralho, o bicho preso no isonor e mexendo as patas, sem conseguir sair.
…
Há alguns dias houve uma grande injustiça no setor onde trabalho, e um funcionário completamente incompetente, porém pelego e baba-ovo foi preferido numa posição superior, à frente de outros que estavam se preparando havia meses, estudando e se qualificando para o cargo proposto. Dentre estes, eu.
Conversando com meu superior imediato, me mostrei bastante desestimulado e chateado com o ocorrido e ele me disse que não perdesse as esperanças, porque a esperança é a última que morre.
No que eu retruquei de pronto: “Não, chefe. O último que morre é o grilo.”
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