O meu Recife
09/9/2008Lembro pouco do Recife nos anos 80.
Lembro do Cais do Porto e da SGS – empresa onde meu tio Raimundo trabalhava, e lembro de brincar na praça Barão do Rio Branco, quando ainda era uma pracinha, e dos conselhos de mamãe para termos cuidado com os bêbados e maloqueiros que rondavam o lugar. Bairro tipicamente portuário, o Recife Antigo da época.
Daí lembro do Bairro Novo e de Casa Caiada, mas ali já é Olinda. Ali eu jogava bola e aprendia a tocar violão com meu irmão e meus primos. A ruazinha era de terra batida e passavam poucos carros, e não podíamos brincar até tarde, por causa da maloqueiragem. Isso nunca mudou.
Lembro de visitar o túmulo de vovó em Santo Amaro. Lembro do hospital (mas não lembro do nome do hospital) na Ilha do Leite, onde minha irmã foi cirurgiada por conta de um osso mal-remendado, no braço.
Nos anos 90 lembro de ter tentado vir morar no Recife pela primeira vez, para trabalhar na SGS, e de minha mãe não ter deixado, alegando os perigos da metrópole, e minha pouca idade.
Lembro dos primeiros shows de rock, e do Pólo Pina, e do Poko Loco, e de comer sanduíche de coelho no Pedágio, antes de voltar pra casa dos meus primos, com o dia amanhecendo. Lembro, numa aventura dessas, e de ter voltado dirigindo, de Casa Forte ao Bairro Novo, com o pé quebrado, já que todos os outros ocupantes do carro estavam bêbados e/ou emaconhados demais para assumirem o volante.
Lembro ter vindo curar, no Recife, minha primeira desilusão amorosa.
Lembro do meu tio Raimundo morrendo e de como as visitas se tornaram mais escassas, à medida que a vida adulta se aproximava.
Vira o milênio e os computadores não páram, e eu lembro de ter o Recife se tornado minha base central de trabalho, por ironia do destino, e de várias vezes quando precisei vir aqui, para reuniões, oficinas, e apresentações.
Hoje o meu Recife é a Boa Vista, da Conde e de seu comércio louco. Do mercado onde compro frutas aos sábados, e onde corto o cabelo. Dos Amantes de Glória, e de Lili – que nem sempre toca flauta.
Meu Recife é o Antigo, não mais portuário. É a Ilha do Retiro em dia de jogo. É o fedor da Agamenom Magalhães. É a padaria Santa Terezinha, na Manoel Borba.
Meu Recife é a Madalena, a Torre, o Parnamirim, o Derby. São os bairros onde ando e onde respiro o cheiro azedo dos manguezais.
Meu Recife são os carrinhos de fruta em todas as esquinas, e o maltado da Rua do Bom Jesus.
Meu Recife é a praia de Boa Viagem, onde as pessoas tomam banho, mesmo sabendo dos tubarões, e onde se refresca tomando caldinho de feijão com ovo de codorna. Onde mora meu coração e onde vejo meu futuro.
Há um ano eu vim para ficar, e não me vejo em outro lugar.
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