PPF36

04/13/2009

Dia desses aí fui na Receita Federal, resolver sei-lá-o-quê.

O atendimento em órgãos públicos é, público e notório, em sua maioria, um caos.

Para ser atendido, é preciso pegar uma fila para pegar uma ficha numerada, e daí seguir para uma outra fila, desta vez mascarada em forma de cadeiras e painel eletrônico, nada muito confortável, como é de se esperar.

Um senhor à minha frente olha para todos os lados, balbuciando algo inaudível, quando começa a falar alto sobre seu problema. Não fala em direção a ninguém, mas olha para todos os que estão mais próximos de si, talvez na esperança que alguém lhe dê corda para continuar o papo, o que acontece logo, claro.

Sua filha entrou num negócio que precisa de fiador, ou entrou como fiadora num negócio, ou tinha um negócio sem fiador. Fato que há uma diferença de 35 mirréis, que ela não recebeu, ou que pagou a maior. “É o dinheiro desse povo aqui que patrocina a farra”, gritava. Verdade.

Sentado ao meu lado, um casal puxa assunto com um senhor, e todos compartilham seus casos. Acabam descobrindo que conhecem o irmão de uma terceira pessoa, que mora ali no Torreão, ou em Setúbal, e as estórias compartilhadas passam para o lado pessoal.

As pessoas, afinal, só querem ser ouvidas. É uma necessidade de quem se vê em necessidade.

A atendente que me entregou a ficha mal me olhou, mal me ouviu, e me entregou um papel que diz que sou PPF36. Sabe-se lá o que isso significa.

O painel à minha frente mostra que estão no PPF25. Aguardo, e torço para que minha numeração seja do atendimento que eu preciso, senão terei que voltar ao início de tudo, talvez até tendo que pegar o ônibus de casa pra cá de novo, já que a atendente me disse, entre um abraço numa colega e o telefone preso entre o ombro e a cabeça, que os atendimentos de CPF são todos após as 14h.

Cruzo os dedos.

O ar-condicionado não funciona, encho minha garrafinha d’água.

O que será que acontece quando algum político, ou algum dos seus, precisa de atendimento num lugar como esse?

PPF27.

Com certeza não ficam monitorando sua vez num painel eletrônico, nem precisam encher garrafinhas d’água.

PPF28. Foi rápido, esse.

Todos os que chegam aqui se impressionam com a fila para pegar fila. E é um absurdo, mesmo. Eles, lá em Brasília, fingem que trabalham, e nós, aqui no país, fingimos que aceitamos. Isso é uma opinião pessoal, e não uma conversa furtada.

Aqui todos são iguais, pobres ou ricos, formados ou não. Gente do interior, usando roupa de missa, oficiais de justiça com maletas 007 entuiadas de papel, deficientes físicos, com uma fila especial, para pegar uma ficha de atendimento especial. Só não vejo políticos.

Políticos são diferentes, claro.

Ainda não decidi o que é que está mais quente: o ar, ou a água da minha garrafinha.

PPF29. Pelo que ouço de outras pessoas, o PPF é o prefixo mais demorado no painel de atendimento, e eu acredito.

Há uns que são acostumados a virem a lugares como esse. Vêm toda semana, ou todo dia. Conhecem porteiro, vigilante, atendente, telefonista. Conhecem bem o sistema de atendimento.

Engraçado.

Falando assim, me dou conta que, por mais que seja chamado dessa forma, não consigo me sentir atendido. Apenas despachado. Deveriam chamar despachamento.

Passo o tempo inventando significados para os prefixos que aparecem no painel.

PPF = papa-figo. PPJ = papa-jaca. MA é maranhão.ML, Mercado Livre. EP é como no vinil, e IDO deve ser o oposto de vindo. PBX é um neologismo, com certeza. Rebuxo é como teu buxo tá tão cheio que rebuxa. Meta-buxo, diriam.

ACN devem ser as iniciais de algum político safado. Baiano, provavelmente. Ou alagoano.

O que acontece quando esse painel dá uma pane? Deve ser um rebuliço do carai.

CDF é cu-de-ferro, lógico! Essa é fácil.

ACF é muito parecido com ACN… deve ser doença! “Fulano morreu de ACF”. Faz total sentido, para mim.

De repente me lembrei daqueles filmes antigos, com estórias passadas em alguma época medieval, e onde sempre havia um coletor de impostos, ou um xerife, que passava recolhendo o dinheiro do povo lascado, fudido, e mal pago.

Comparando as épocas, acho que estamos em retrocesso. De alguma forma, o coletor de impostos de outrora não parece tão assustador quando ser chamado de ACF98.

PPF31. Estou aqui há hora e meia, aproximadamente. Talvez eu saia antes do meio dia. De amanhã. Com sorte, ainda janto em casa na quarta-feira. Mas o que eu queria mesmo era poder tomar banho e trabalhar hoje à tarde.

LR eu não faço a mínima ideia do que seja. Minha criatividade já está bastante comprometida pelo calor, pela fome, e pela água quente na minha garrafinha.

PPF32. Mais perto que longe, segundo seu Josué.

Minha bunda está dormente, e não aguento mais o livrinho de palavras cruzadas. Resolvo me levantar e procurar café. De vez em quando passa alguém com um copinho de café do meu lado. Deve haver café em algum lugar por aqui.

PPF34. O café é de um senhor na calçada. Custa 50 centavos, mas eu tô liso. Não tirei dinheiro antes de vir pra cá. Uma vergonha, não poder tomar um cafezinho.

Duas horas e vinte minutos depois de eu ter chegado aqui, sou atendido pelo Carlos, ou pelo Henrique, que, em determinado momento de nosso atendimento (não consigo mesmo, me sentir atendido!), sai para buscar um formulário que vou precisar preencher em casa, e trazer aqui anda essa semana.

Tenho certeza que o formulário está em algum lugar próximo à garrafa de café, ou ao bebedouro d’água, ou à mesa daquela colega gostosa que o Aldair, ou Gustavo, está dando em cima. Ele diz que o formulário está “lá em cima”, provavelmente se referindo a algum andar superior, o que reforça a minha tese.

Já estou aqui há 15 minutos e nada do formulário chegar. Nem o Carlos, ou Aldair.

Ainda bem que ainda tenho uma folhinha de palavras cruzadas, e o ar está condicionado nesta sala.

There are 2 comments in this article:

  1. 04/14/2009bony inoue says:

    Bom texto, muito bom mesmo!
    ;)

  2. 04/14/2009Isa says:

    Menino,sua ida à Receita mais me pareceu uma viagem de substancias ilicitas….hahahahaha…otimo texto…a gente brinca,mas é absurdo tudo isso.Bjo