Carnaval
por Thiago
Enquanto acendia um cigarro, sentado na beira da calçada, arlequins de abadás passados e colombinas semi-nuas desfilavam, bêbados e cheirando a éter, à sua frente.
Durante alguns poucos minutos, desejou não estar ali. Não se sentia ali, na verdade.
Queria poder se divertir durante os festejos, como há nunca não fazia. Queria entrar no baile, lançar o perfume, rodar o salão, cegar-se com o brilho das fantasias, compactuar com Momo. Esquecer os acontecimentos dos últimos dias, e as reviravoltas de sua vida. Esquecer que um dia tivera tudo, e hoje, nada.
Não agüentava mais a fumaça do Derby. Não tinha dinheiro para nada mais sofisticado. Como mudara.
Sua vida definhava. Não era mais metade do homem que um dia fora. Seus parcos fios de cabelo brancos espantavam as meninas que tentava bolinar, com entusiasmo etílico. Meninas com idade de minhas netas, pensava. Melhor esquecer.
Tossiu forte. Tirou o lenço do bolso da calça, limpou o canto da boca. Talvez a parte mais difícil disso tudo fosse tentar fingir. Sua pele era sua mortalha.
Levantou-se. Tentou se segurar. Caiu sobre uma mesa. Ajuda, tio? Não. Obrigado. Preciso apenas mijar. Doía-lhe a bexiga quando segurava o mijo durante muito tempo.
O salão girava sobre seu próprio eixo. Seu corpo cambaleava em translação até alcançar o banheiro.
Não entendia como chegara a esse ponto. Na juventude estivera rodeado das mais belas mulheres e dos mais influentes amigos. Seu nome caíra no esquecimento, e toda a culpa era sua, sabia.
Juntara uns poucos trocados, vivera os últimos anos alternando lapsos de memória com lampejos de amargor. Aquela era sua última tentativa de sorrir. Ou seu último flagelo.
Por causa de sua condição, o mijo ardia quando pingava lentamente para fora de sua uretra. Não se importava. Na verdade, já se acostumara com a dor. Sua miséria era sua única companheira. Era miséria, mas era sua. Fazia com ela o que bem entendesse.
Fechou a braguilha, saiu do banheiro. Dirigiu-se ao bar, pediu mais uma dose, acendeu mais um cigarro. Naquela noite não houve véspera, apenas escarro.
Tosse.
Olhava em volta, sorria. A felicidade dos foliões o contagiava, mas seu corpo não o obedecia. Eu era um pé-de-valsa na juventude, sabia? A menina o olhou de revés-tréz, sorriu amarelo, saiu com sua cerveja. Eu não falei com ela mesmo. Não importa. Outra dose. Outra dose. E outra dose. Cuidado, tio. Isso é uma bomba. Cuidado é o caralho! Na tua idade eu derrubava qualquer pessoa que me desafiasse de testa em copo. Cuidado é o escambau!
Pagou. Dinheiro amarrotado – trôco de feira. Arriscou um passo. A quina da mesa estava no caminho.
O sangue correu a testa, fechou os olhos. Voltou a ser aquele homem de antes. Rico. Bonito. Desejado. Invejado. Baú de pecados e luxúrias diversas. A vida para trás. O que se viver pela frente. Dormiu o sono dos justos, e em sonho reviveu quem era. Apenas, por alguns segundos, desejou não ter acendido aquele cigarro.