Personagens

por Thiago

Quando o ônibus passa pela avenida Guararapes e já mais da metade dos passageiros têm descido, é quando você consegue ver e prestar atenção em quem está fazendo a viagem contigo.

Sentei ao lado daquele cara desde a última parada, e nos levantamos juntos, para descer depois do shopping.

“Fale com o motorista apenas o indispensável”, diz o aviso, e o cara começou a tirar onda com o motorista e o cobrador, tentando arrancar deles algum sorriso naquele começo de manhã. “Motorista, você é indispensável! Cobrador, você é indispensável!”, espirituoso. “Motorista, vou descer na próxima parada, porque sou dispensável, mas tu continuas, porque és indispensável!”, e a turma até que ria. Confesso que sorri. Uma vez. Talvez duas. A intenção vale.

Tem uma construção abandonada na Conde da Boa Vista que foi invadida por uns taxistas (depois que foderam a Conde da Boa Vista e não se pode mais parar táxis nela), que fizeram do espaço seu ponto. Não sei porque, cojones, neste dia havia uma mangueira grandona saindo de lá de dentro, jogando litros e litros d’água literalmente no meio da avenida.

A poça que se formava era tão grande que obrigava os motoristas a passarem para a faixa exclusiva dos ônibus, pra desviar. Apenas uma ou outra alminha mais suja passava pela água, molhando a calçada e o que mais estivesse caminhando sobre ela.

Aquele cara viu a presepada de longe, e já diminuiu o passo, enquanto apontava em direção a um carro que vinha, sem desviar da água.

Eu, que vinha caminhando logo atrás, já previ a cena.

“Fe-la-da-PUUUUUU-ta!!!! Anotei tua placa!!!!” e apontava o dedo na cara do motorista que olhava assustado.

“Káípsilonzê-catorzedezooooooooito!!! Tá fudiiiiiido!!!”, apontando pra outro.

Resolvi continuar minha caminhada, mas ainda deu tempo de escutar mais 2 ou 4 carros sendo xingados e ameaçados.

Quando me virei pra ver, ele havia sacado uma câmerazinha digital, ensopado, mas firme em seu protesto.

Talvez eu devêsse ter perguntado algo.