Provocação

por Thiago

(…) no meu humilde olhar de integrante desta casta recifense, acredito que só vamos começar a mudar o problema da violência quando conseguimos chorar a morte de quem sequer existe. Daqueles que morrem escondidos na periferia da nossa cidade, que não ganham nem nota de pé de página nos jornais quando recebem dois tiros na cabeça. (…)

Conheci João Valadares através de meu colega, amigo, e companheiro de boemias Cézar Maia.

Lembro (e alguns outros lembram) de certa feita termos saído para tomar umas e mais outras emendando 3 ou 4 botecos, e lá pelo segundo ou terceiro da leva eu ter sido desafiado por João para virarmos copos de uísque.

Bêbado, que eu já estava, aceitei, e bêbado, que já estava, não percebi que, enquanto meu copo era cheiro de uísque, o copo de João era cheio de gelo, e apenas banhado em uísque.

Lá fomos nós para o primeiro, segundo, terceiro copos seguidos. E eu me segurando.

Quando resolvemos que tínhamos chegado a um empate técnico e nos levantamos da mesa, precisei ser carregado até o carro.

E lá fomos nós para o destino final da noite, em alguma ladeira obscura de Olinda.

Chegando lá, senti o peso da bebida no estrombo, calibrado por golfes vomitados nos últimos 10 ou 15km passados entre um e outro ponto. Não lembro.

Resultado: caganeira.

Como não tinha banheiro por perto, fui atrás da primeira árvore que encontrei. E Deus sabe como eu me limpei, porque eu mesmo, não.

Quando a turma deu por minha falta, já que quando a justiça foi clamada por meus entremézes eu desembestei, foi João que saiu a minha caça, talvez removido pela própria seboseira de sua alma — traiçoeiro que foi ao me pegar na batalha injusta entre álcool destilado versus água de côco.

Incrível, mesmo lendo artigos fuderosos como esse, que João escreve tão bem, a única coisa que consigo pensar é que um dia ainda vou à desforra naquele cabassafado.

Mas ele merece alguns abraços, afinal.