Thiago Pedrosa

Ainda estou aqui

… ou quase.

Nos dias de hoje, quando passo 9 horas por dia em frente a um computador no trabalho, as últimas coisas que quero ver na minha frente durante o resto do dia são um monitor e um teclado. Sei que eu deveria me disciplinar mais, e me dar um tempinho semanal para criar e compartilhar coisas nesse blog, mas acho que não é uma das minhas prioridades.

Então que muito do que jogo na rede tem saído do meu espertofone. Pequenos fragmentos e pedaços dos meus dias, a saber:

Fotos: Flickr.

Verbos: Twitter.

Sempre em frente.

Exercício de desapego

Para muitos, deixar a barba crescer é uma experiência emocional de autodescobrimento. Assim foi para mim, também, quando deixei a barba crescer pela primeira vez, há um bom punhado de anos.

De lá para cá tenho passado mais tempo barbudo do que não. Lâminas de barbear têm sido usadas raramente, e venho mantendo um visual mais limpo usando apenas uma máquina no pente 2.

A experiência emocional de autodescobrimento, portanto, começou semana passada: resolvi raspar barba e cortar o cabelo baixinho.

Há anos não fazia algo assim!

Algumas pessoas estão achando que ficou bom, outras nem tanto. Minha esposa estranhou no primeiro dia. Meu filho me pede para deixar a barba crescer novamente, e passou dois dias para me dar um beijo.

Seja como for, para mim tem sido uma experiência nova: me olhar no espelho, ver um rosto diferente do que estava acostumado a ver, tentar encontrar algo no meu exterior que reflita qualquer coisa de dentro de mim, e me acostumar com isso tudo, me esforçando para não me achar feio demais.

É uma experiência nova, sim.

E é apenas o começo de algum tipo de projeto pessoal, que ainda não sei bem no que vai dar, mas que, depois de iniciado, não tem mais como parar.

35

Foto por minha esposa linda, Isabel.

Quando eu era criança costumava ouvir sempre dos meus pais que eu deveria aproveitar melhor o meu tempo, por que, quando eu ficasse mais velho o tempo seria cada vez mais curto.

Nos últimos anos fiz reflexões pessoais, enfrentei conflitos, e percebi que compreendo o conselho de meus pais. O tempo está, de fato, passando cada vez mais rápido. Meus aniversários já não tem mais a importância de uma comemoração, como tinham antes. Ao invés, se tornaram marcos de revisões pessoais, de resoluções, de promessas, e de auto-avaliações.

Venho enxergando a vida mais e mais como um gigantesco turbilhão de acontecimentos, dos quais alguns posso prever e controlar, mas com uma quantidade muito grande de eventos que fogem do meu alcance.

Essa sensação de impotência mexe comigo.

Compreendo a impermanência, e tento conviver com ela todos os dias de minha vida.

E venho percebendo que, se por um lado não posso controlar o curso natural das coisas, por outro posso aproveitar o tempo que tenho, e tentar simplesmente não me preocupar tanto com o que pode ou não acontecer.

É difícil, mas é necessário.

Então, se eu posso aproveitar um único momento de felicidade, e se esse momento aparece para mim, preciso aproveitá-lo ao máximo, não importando o que seja. Ficar bêbado, dar um mergulho no mar, assistir uma partida de futebol, conversar com alguém querido, correr, fazer sexo, criar um desenho, respirar, rabiscar uma folha de papel em branco, fotografar um estranho, ler um gibi. Qualquer coisa que me mantenha ocupado. Qualquer coisa que me faça pensar, e que me faça querer cada vez mais fazer algo novo, de novo.

Por que se eu não fizer algo, não criar algo, não me sentir útil para o mundo ou para mim mesmo, então não existe mais nenhuma razão para nada.

E cá estou eu, hoje, completando 35 anos. Chegando à idade que sempre considerei como sendo a metade do tempo que eu naturalmente teria nesse mundo. Acompanhado de uma família maravilhosa e que eu amo muito. Com um emprego que pode até não ser aquele com o qual sonhei na minha infância ou adolecência, mas que me ajuda a sustentar minha família e meus caprichos pessoais.

Estou lutando, tentando construir algo todos os dias, e creio que eu esteja conseguindo, muito embora ainda não consiga enxergar.

Que venham mais 35 anos, e que eu consiga abrir meus olhos.