Thiago Pedrosa

Not good, not bad. Just different.

Em 1992 eu participei de um programa de intercâmbio estudantil.

Durante um ano convivi com outros jovens estudantes intercambistas, de todas as partes do mundo. Conheci americanos, portugueses, alemães, japoneses, búlgaros, húngaros, russos, tailandeses, belgas, e até paulistas e cearenses. Ou seja, todo tipo de gente.

Vivi em duas famílias diferentes, e que não eram como minha família de verdade. Estudei em duas escolas diferentes, e que não era como minha escola no Brasil, em duas cidades diferentes, que não eram nada parecidas com a Mossoró que eu conhecia.

Tudo era motivo de comparações, para mim. E a vida começou a ficar muito complicada.

Comportamentos que antes eu considerava inapropriados ou errados, tive que tolerar, para que o meu próprio comportamento fosse tolerado.

Tive que comer comidas que antes me causavam repulsa, ou que eu, por simples frescura, me recusava experimentar.

Era difícil. No começo eu me recusava a aceitar, a comer, a andar, a falar, a pensar, a confrontar. Mas precisei mudar e terminei aprendendo com a diversidade. E, à medida que eu aprendia, percebi que também ensinava, pois a percepção de diferença é uma via de mão dupla. O belo só nos parece assim porque há o feio.

Uma das orientadoras do nosso programa de intercâmbio costumava nos dizer, sempre: “Not good, not bad. Just different.”

Acho que poucas frases marcaram tanto a minha vida como essa. Foi, durante muitos anos, como um mantra, para mim.

Era a teoria da relatividade aplicada ao meu cotidiano. O zen meu de cada dia. Algo que podia nortear decisões e impressões e julgamentos, sejam sobre pessoas, lugares, idéias.

Repeti isso na frente de espelhos e enfiado em travesseiros, exaustivamente. Escrevi em cadernos e agendas, e usei como citação nos rodapés de emails e cartas.

E o que vejo hoje é que, quanto mais as distâncias são vencidas pela tecnologia, e quanto mais as diferenças são expostas diante dos nossos olhos, mais precisamos nos lembrar que as coisas não são boas, nem ruins – são apenas diferentes.

E quem quiser conviver em sociedade, seja eu ou você, seja em São Paulo, seja no Coque, ou seja no Twitter ou no Facebook, tem que aprender que aquela sociedade não foi feita para você e os que você considera como seus semelhantes. Os seus semelhantes são todas as pessoas do mundo, que são únicas por serem distintas. Que são unidas na diversidade.

É tudo uma questão de percepção e respeito.

Mendigo na Sé

Essa é a foto que eu não tirei, de um mendigo dentro da Catedral da Sé, em São Paulo, em um dia comum, em uma semana comum, com o movimento comum de pessoas que entravam e saíam da igreja, buscando, cada qual a seu modo, conforto para suas mazelas pessoais, paz para seus espíritos transtornados, ou simplesmente agradecer por alguma graça alcançada através de manifestações de fé. A imponência da Catedral parece fazê-la crescer ainda mais, quando se está em seu interior, e qualquer ser humano ali dentro se sente minúsculo perante qualquer outra coisa, independente de sua crença. As pessoas simplesmente passavam pelo mendigo, como passavam uns pelos outros, dentro daquele enorme salão. Nada diferente do que geralmente acontece em sua vida, mas ali, provavelmente, ele estava mais seguro. Tinha seu corpo mal coberto por rotos farrapos, e um semblante misto de medo e de desespero, que parecia, ao mesmo tempo, pedir socorro, e pedir explicações. E talvez, para ele, as explicações fossem o seu almejado socorro.

Cientificamente comprovado

No início do ano de 1995 eu era estudante de Agronomia na antiga ESAM, e uma das disciplinas da grade currícular tinha o pomposo nome de Entomologia e Parasitologia I, onde estudávamos os insetos e sua relação com a agricultura e pecuária.

O trabalho de conclusão semestral consistia em fazer um insetário completo, em caixa de madeira com tampa de vidro, e uma folha espessa de isonor onde os pobres insetos — depois de devidamente assassinados em um pote de Nescafé com um chumaço de algodão embebido em éter ou acetona — deveriam ser arrumados e alfinetados pelas costas, e etiquetados com o nome científico e hora e data de coleta.

Na coleção deveriam haver insetos de várias ordens diferentes, e eu sempre me divertia arrumando os bichinhos no isonor. Era como brincar com um Playmobil que já foi vivo.

Os mais divertidos eram os Ortopteróides (grilos, esperanças, bichos-pau). Sempre ficavam bonitos depois de arrumadinhos, com as patas levemente dobradas nas juntas, antenas esticadas e, às vezes, asas abertas em posição de vôo.

Um belo dia consegui capturar três magníficos exemplares de Ortopteróides: um grilo, uma esperança, e um gafanhoto. Enfiei os três em vidrinhos separados, embebi os chumaços de algodão no loló, joguei dentro, e os deixei agonizando uma noite inteira. No dia seguinte peguei os cadáveres, ajeitei-lhes as patas, meti-lhes alfinetes nas costas e os preguei na caixa, devidamente etiquetados. No mesmo dia fui apresentar meu insetário ao professor, para ganhar a nota final do semestre.

A minha grande surpresa foi chegar lá e ver que o grilo ainda se mexia, mesmo depois de uma noite exposto ao ácido e de ter levado uma alfinetada nas costas.

Bizarro para caralho, o bicho preso no isonor e mexendo as patas, sem conseguir sair.

Há alguns dias houve uma grande injustiça no setor onde trabalho, e um funcionário completamente incompetente, porém pelego e baba-ovo foi preferido numa posição superior, à frente de outros que estavam se preparando havia meses, estudando e se qualificando para o cargo proposto. Dentre estes, eu.

Conversando com meu superior imediato, me mostrei bastante desestimulado e chateado com o ocorrido e ele me disse que não perdesse as esperanças, porque a esperança é a última que morre.

No que eu retruquei de pronto: “Não, chefe. O último que morre é o grilo.”