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Exercício de desapego

01/13/2011

Para muitos, deixar a barba crescer é uma experiência emocional de autodescobrimento. Assim foi para mim, também, quando deixei a barba crescer pela primeira vez, há um bom punhado de anos.

De lá para cá tenho passado mais tempo barbudo do que não. Lâminas de barbear têm sido usadas raramente, e venho mantendo um visual mais limpo usando apenas uma máquina no pente 2.

A experiência emocional de autodescobrimento, portanto, começou semana passada: resolvi raspar barba e cortar o cabelo baixinho.

Há anos não fazia algo assim!

Algumas pessoas estão achando que ficou bom, outras nem tanto. Minha esposa estranhou no primeiro dia. Meu filho me pede para deixar a barba crescer novamente, e passou dois dias para me dar um beijo.

Seja como for, para mim tem sido uma experiência nova: me olhar no espelho, ver um rosto diferente do que estava acostumado a ver, tentar encontrar algo no meu exterior que reflita qualquer coisa de dentro de mim, e me acostumar com isso tudo, me esforçando para não me achar feio demais.

É uma experiência nova, sim.

E é apenas o começo de algum tipo de projeto pessoal, que ainda não sei bem no que vai dar, mas que, depois de iniciado, não tem mais como parar.

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11/12/2010

Foto por minha esposa linda, Isabel.

Quando eu era criança costumava ouvir sempre dos meus pais que eu deveria aproveitar melhor o meu tempo, por que, quando eu ficasse mais velho o tempo seria cada vez mais curto.

Nos últimos anos fiz reflexões pessoais, enfrentei conflitos, e percebi que compreendo o conselho de meus pais. O tempo está, de fato, passando cada vez mais rápido. Meus aniversários já não tem mais a importância de uma comemoração, como tinham antes. Ao invés, se tornaram marcos de revisões pessoais, de resoluções, de promessas, e de auto-avaliações.

Venho enxergando a vida mais e mais como um gigantesco turbilhão de acontecimentos, dos quais alguns posso prever e controlar, mas com uma quantidade muito grande de eventos que fogem do meu alcance.

Essa sensação de impotência mexe comigo.

Compreendo a impermanência, e tento conviver com ela todos os dias de minha vida.

E venho percebendo que, se por um lado não posso controlar o curso natural das coisas, por outro posso aproveitar o tempo que tenho, e tentar simplesmente não me preocupar tanto com o que pode ou não acontecer.

É difícil, mas é necessário.

Então, se eu posso aproveitar um único momento de felicidade, e se esse momento aparece para mim, preciso aproveitá-lo ao máximo, não importando o que seja. Ficar bêbado, dar um mergulho no mar, assistir uma partida de futebol, conversar com alguém querido, correr, fazer sexo, criar um desenho, respirar, rabiscar uma folha de papel em branco, fotografar um estranho, ler um gibi. Qualquer coisa que me mantenha ocupado. Qualquer coisa que me faça pensar, e que me faça querer cada vez mais fazer algo novo, de novo.

Por que se eu não fizer algo, não criar algo, não me sentir útil para o mundo ou para mim mesmo, então não existe mais nenhuma razão para nada.

E cá estou eu, hoje, completando 35 anos. Chegando à idade que sempre considerei como sendo a metade do tempo que eu naturalmente teria nesse mundo. Acompanhado de uma família maravilhosa e que eu amo muito. Com um emprego que pode até não ser aquele com o qual sonhei na minha infância ou adolecência, mas que me ajuda a sustentar minha família e meus caprichos pessoais.

Estou lutando, tentando construir algo todos os dias, e creio que eu esteja conseguindo, muito embora ainda não consiga enxergar.

Que venham mais 35 anos, e que eu consiga abrir meus olhos.

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Not good, not bad. Just different.

11/6/2010

Em 1992 eu participei de um programa de intercâmbio estudantil.

Durante um ano convivi com outros jovens estudantes intercambistas, de todas as partes do mundo. Conheci americanos, portugueses, alemães, japoneses, búlgaros, húngaros, russos, tailandeses, belgas, e até paulistas e cearenses. Ou seja, todo tipo de gente.

Vivi em duas famílias diferentes, e que não eram como minha família de verdade. Estudei em duas escolas diferentes, e que não era como minha escola no Brasil, em duas cidades diferentes, que não eram nada parecidas com a Mossoró que eu conhecia.

Tudo era motivo de comparações, para mim. E a vida começou a ficar muito complicada.

Comportamentos que antes eu considerava inapropriados ou errados, tive que tolerar, para que o meu próprio comportamento fosse tolerado.

Tive que comer comidas que antes me causavam repulsa, ou que eu, por simples frescura, me recusava experimentar.

Era difícil. No começo eu me recusava a aceitar, a comer, a andar, a falar, a pensar, a confrontar. Mas precisei mudar e terminei aprendendo com a diversidade. E, à medida que eu aprendia, percebi que também ensinava, pois a percepção de diferença é uma via de mão dupla. O belo só nos parece assim porque há o feio.

Uma das orientadoras do nosso programa de intercâmbio costumava nos dizer, sempre: “Not good, not bad. Just different.”

Acho que poucas frases marcaram tanto a minha vida como essa. Foi, durante muitos anos, como um mantra, para mim.

Era a teoria da relatividade aplicada ao meu cotidiano. O zen meu de cada dia. Algo que podia nortear decisões e impressões e julgamentos, sejam sobre pessoas, lugares, idéias.

Repeti isso na frente de espelhos e enfiado em travesseiros, exaustivamente. Escrevi em cadernos e agendas, e usei como citação nos rodapés de emails e cartas.

E o que vejo hoje é que, quanto mais as distâncias são vencidas pela tecnologia, e quanto mais as diferenças são expostas diante dos nossos olhos, mais precisamos nos lembrar que as coisas não são boas, nem ruins – são apenas diferentes.

E quem quiser conviver em sociedade, seja eu ou você, seja em São Paulo, seja no Coque, ou seja no Twitter ou no Facebook, tem que aprender que aquela sociedade não foi feita para você e os que você considera como seus semelhantes. Os seus semelhantes são todas as pessoas do mundo, que são únicas por serem distintas. Que são unidas na diversidade.

É tudo uma questão de percepção e respeito.

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