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Mendigo na Sé

09/21/2010

Essa é a foto que eu não tirei, de um mendigo dentro da Catedral da Sé, em São Paulo, em um dia comum, em uma semana comum, com o movimento comum de pessoas que entravam e saíam da igreja, buscando, cada qual a seu modo, conforto para suas mazelas pessoais, paz para seus espíritos transtornados, ou simplesmente agradecer por alguma graça alcançada através de manifestações de fé. A imponência da Catedral parece fazê-la crescer ainda mais, quando se está em seu interior, e qualquer ser humano ali dentro se sente minúsculo perante qualquer outra coisa, independente de sua crença. As pessoas simplesmente passavam pelo mendigo, como passavam uns pelos outros, dentro daquele enorme salão. Nada diferente do que geralmente acontece em sua vida, mas ali, provavelmente, ele estava mais seguro. Tinha seu corpo mal coberto por rotos farrapos, e um semblante misto de medo e de desespero, que parecia, ao mesmo tempo, pedir socorro, e pedir explicações. E talvez, para ele, as explicações fossem o seu almejado socorro.

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Cientificamente comprovado

11/30/2009

No início do ano de 1995 eu era estudante de Agronomia na antiga ESAM, e uma das disciplinas da grade currícular tinha o pomposo nome de Entomologia e Parasitologia I, onde estudávamos os insetos e sua relação com a agricultura e pecuária.

O trabalho de conclusão semestral consistia em fazer um insetário completo, em caixa de madeira com tampa de vidro, e uma folha espessa de isonor onde os pobres insetos — depois de devidamente assassinados em um pote de Nescafé com um chumaço de algodão embebido em éter ou acetona — deveriam ser arrumados e alfinetados pelas costas, e etiquetados com o nome científico e hora e data de coleta.

Na coleção deveriam haver insetos de várias ordens diferentes, e eu sempre me divertia arrumando os bichinhos no isonor. Era como brincar com um Playmobil que já foi vivo.

Os mais divertidos eram os Ortopteróides (grilos, esperanças, bichos-pau). Sempre ficavam bonitos depois de arrumadinhos, com as patas levemente dobradas nas juntas, antenas esticadas e, às vezes, asas abertas em posição de vôo.

Um belo dia consegui capturar três magníficos exemplares de Ortopteróides: um grilo, uma esperança, e um gafanhoto. Enfiei os três em vidrinhos separados, embebi os chumaços de algodão no loló, joguei dentro, e os deixei agonizando uma noite inteira. No dia seguinte peguei os cadáveres, ajeitei-lhes as patas, meti-lhes alfinetes nas costas e os preguei na caixa, devidamente etiquetados. No mesmo dia fui apresentar meu insetário ao professor, para ganhar a nota final do semestre.

A minha grande surpresa foi chegar lá e ver que o grilo ainda se mexia, mesmo depois de uma noite exposto ao ácido e de ter levado uma alfinetada nas costas.

Bizarro para caralho, o bicho preso no isonor e mexendo as patas, sem conseguir sair.

Há alguns dias houve uma grande injustiça no setor onde trabalho, e um funcionário completamente incompetente, porém pelego e baba-ovo foi preferido numa posição superior, à frente de outros que estavam se preparando havia meses, estudando e se qualificando para o cargo proposto. Dentre estes, eu.

Conversando com meu superior imediato, me mostrei bastante desestimulado e chateado com o ocorrido e ele me disse que não perdesse as esperanças, porque a esperança é a última que morre.

No que eu retruquei de pronto: “Não, chefe. O último que morre é o grilo.”

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Palco em 5 atos

10/27/2009

Prólogo

Há alguns meses atrás o Banco do Brasil criou uma campanha inovadora: abriu um grupo dentro do Flickr para receber imagens da comunidade. Essas imagens são avaliadas, e algumas são escolhidas para integrarem as campanhas publicitárias do banco. O fotógrafo selecionado recebe fama e fortuna por seu trabalho, seja ele profissional ou não.

O Itaú tem uma ação semelhante, apesar de não usar o Flickr como porta de entrada para suas imagens. Mas, da mesma forma, dá aos fotógrafos e artistas selecionados não só os créditos autorais devidos, como também compra a licença de uso por seus trabalhos.

Ponto para o BB, e ponto para o Itaú. Reconhecendo e dando oportunidades, e trabalhando a responsabilidade social e a transparência, de uma forma simples e inteligente.

Daí que o HSBC, essa semana, resolveu pular no trem em movimento, e criou uma comunidade no Flickr para receber trabalhos que seriam usados em suas campanhas publicitárias. Porém, ao contrário do BB e do Itaú, o HSBC resolveu que os fotógrafos, profissionais ou não, deveriam ser todos tratados como amadores, e estipulou, em seu regulamento, que não pagaria nada pelas imagens escolhidas, mas apenas daria o crédito autoral. Apenas deixaria o nome do fotógrafo aparecer, e nada mais.

A ação

Bem… Eles podem fazer isso? Claro! É a campanha deles. E isso é bom? Depende de “para quem”. O banco sai lucrando. Cria campanhas publicitárias usando fotos que foram obtidas de graça, e fatura milhões com elas. O fotógrafo pode ter seu nome divulgado, mas inflaciona o mercado, desvalorizando o seu trabalho. Mas ei! As fotos são deles, eles podem fazer o que quiserem!

Não demorou muito para uma turma se manifestar contra o regulamento do HSBC. Muitos fotógrafos, amadores e profissionais, se meteram no grupo, abriram um tópico, e criticaram/condenaram o regulamento. A discussão correu quente durante todo o dia de ontem. E, dentre os que se posicionaram contra, estava eu.

O meu erro

Inflamado pela discussão como eu estava, direcionei minhas pedras para as cabeças daqueles que resolveram dar suas fotos de graça para o HSBC, criei uma lista preparada cuidadosamente, com os nomes e links de cada um deles, e postei no grupo, para todos verem o que já estava lá para ser visto, e chamei aquelas pessoas de “prostitutas”.

Ok, ok. Usei um termo forte, e não fui justo, nem com aquelas pessoas, nem com as prostitutas. Foi uma analogia infeliz, que resultou em um flood de mensagens que recebi, tanto no Flickr, quanto no Twitter. Metade das mensagens me apoiava, a outra metade me atacava.

Fiquei preocupado, e resolvi que deveria me reposicionar.

Apaguei a mensagem que havia postado no Flickr, e passei a noite pensando.

Os ataques

Dentre as pessoas que me atacaram, 4 se destacaram.

  1. vecks: Deduziu, através do que eu falei, que eu deveria ser o tipo do cara que “tem uma camiseta do Che Guevara”, e acertou. Parabéns, vecks, você foi muito observador. É fácil criar estereótipos, e eu não sei se esse rótulo que me foi dado foi lisongeiro ou pejorativo. De qualquer forma, e sem cinismo algum, agradeço. E me desculpo diretamente contigo, por tudo, tanto no Flickr quanto no Twitter. Apesar de não o conhecer, já vi tuas fotos, já que acompanho algumas pessoas que são teus amigos, e já que temos alguns amigos em comum.
  2. raquelsantana: Ficou com muita raiva de mim. Senti o ódio. Apesar de não me conhecer nem nada, me acusou de ter assumido minha posição por não ter eu “nenhuma foto boa para postar no grupo”. Ou seja: teoricamente, por eu não ter foto boa, me senti enciumado, e resolvi atacar. Veja bem, raquelsantana, foto boa é muito relativo. Vi tuas fotos, e confesso que algumas me agradam, outras nem tanto. É uma opinião, é uma questão de gosto. Talvez, em outra situação, eu até te teria adicionado como contato. Já minhas fotos, por não serem editoriais, talvez não te agradem nem um pouco. E eu estou tranquilo com isso. Ninguém é obrigado a gostar de ninguém, nem tampouco do que o outro faz. Não sei se “te ofendi” como você afirmou. Posso ter te ofendido, posso ter ofendido as prostitutas, ou posso, simplesmente, ter usado de uma analogia infeliz. Cada um interpreta como quiser. Estou dando a parte da minha cara que cabe a cada interpretação possível à tapa. Fiquei chateado, apenas, porque ela me bloqueou. Queria conversar.
  3. Diego Linke: foi o mais racional e educado de todos. Me enviou uma mensagem pelo FlickrMail, se desculpou por ter postado fotos no grupo do HSBC, apesar de não me dever desculpa nenhuma, e foi sincero em dizer que se sentiu ofendido com minha mensagem. Se todos fossem como você, Diego Linke (e isso serve como auto-crítica), os conflitos seriam muito mais facilmente resolvidos. Você lidou com o impasse sem precisar me ameaçar de processoo jurídico nem de uma surra.
  4. A quarta pessoa de destaque criou perfis anônimos no Twitter e no Flickr, unicamente para me ofender, me atacar e me ameaçar. Fez insunuações a respeito de minha masculinidade, e disse que eu estava com “medo” , e que, por isso, apaguei a mensagem que havia postado no grupo. Hmmm… será que tenho tanto “medo”, assim, de alguém que nem mostrou as caras? Quem tem “medo” nessa estória? Na verdade, eu nem deveria me preocupar com pessoas desse tipo, já que ninguém mais se preocupou, mas juro que acho engraçado quando algum anônimo te acusa de ter medo.

As lições aprendidas

O HSBC aprendeu que é sempre bom ouvir a comunidade, alterou as regras de sua campanha, e agora vai pagar pelas fotos usadas.

Eu aprendi que não se deve xingar ninguém pela frente, porque as pessaos se ofendem muito rapidamente. Aprendi que as prostitutas são vítimas de preconceito, e aprendi que devo sempre pensar 3 vezes antes de expressar minhas opiniões. Aprendi que cada um tem o seu, e faz com ele o que bem entender, desde que não prejudique uma sociedade.

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